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Economia RURAL

Sistema que integra lavoura e pecuária é importante para diversificação da produção, diz pesquisador

Pesquisador Luís Armando Zago Machado, responde algumas perguntas sobre integração lavoura-pecuária e fala do evento organizado pela Embrapa sobre a tecnologia

18/10/2021 09h05
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Por: Redacao
Integracao Lavoura Pecuária - Foto:Luis Armando Zago
Integracao Lavoura Pecuária - Foto:Luis Armando Zago

A ILP, sistema de produção que integra lavoura e pecuária, faz parte do Plano ABC, composto por sete programas, do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). A Embrapa realiza diversas pesquisas com integração, seja com o componente floresta ou sem. A seguir entrevista com o pesquisador da Embrapa Agropecuária Oeste (Dourados), sobre a integração lavoura-pecuária, Unidade da Embrapa que organiza há três anos seminário sobre a tecnologia. 

1 – Qual é o histórico, em breve resumo, da integração lavoura-pecuária? A ILP é uma prática utilizada há muitos séculos. Provavelmente, a integração tenha surgido junto com a agricultura, porque os resíduos da agricultura sempre foram bem-vindo na alimentação animal. No Brasil, no século XIX, XX ela já era utilizada, apesar de não ser empregada essa terminologia. Fazia-se a rotação lavoura e pastagem sem ter um sistema organizado. No final do século XX é que começamos a ter sistemas integrados com rotação programada. Isso tem sido muito importante, porque em regiões tropicais, a sucessão ou rotação de culturas anuais leva a perdas consideráveis de matéria orgânica do solo. Quando há rotação com forrageiras, é possível estabilizar ou, até recuperar a matéria orgânica do solo aos níveis originais, já que existem forrageiras tropicais com alta capacidade de acumulação de massa seca, principalmente, de raízes. O grande salto dos sistemas integrados foi o advento do plantio direto, que permitiu a semeadura de culturas anuais como a soja sobre a pastagem dessecada. Essa modalidade é relativamente recente e vem sendo aperfeiçoada nas últimas três décadas.

2 – Quais as vantagens do sistema de ILP? O Sistema Integração Lavoura-Pecuária proporciona ao produtor diversos benefícios. Eu poderia destacar alguns, principalmente técnicos, porque o produtor vê isso no campo com facilidade. As pastagens tropicais têm uma enorme capacidade de acumular forragem, então, além de alimentar grande número de animais, elas deixam muitos resíduos para melhoria física do solo, condições que, em área de lavoura exclusiva, há tendência da degradação física do solo. Por outro lado, nas culturas anuais, principalmente a soja, utilizamos corretivos e fertilizantes, para atender a necessidades delas, mas como nem todo fertilizante é utilizado por essas plantas, há um acúmulo desses nutrientes no solo, principalmente de fósforo, potássio, que são utilizados pelas forrageiras. Nos sistemas integrados as pastagens recuperam a física do solo e as culturas anuais recuperam quimicamente o solo. Do ponto de vista econômico, a integração também é interessante pela diversificação da produção e renda. Com isso, o produtor tem mais produtos sendo vendidos ao longo do ano e tem o menor risco com a produção diversificada. Há, também, o benefício ambiental, porque temos os solos preservados, temos a conservação da água no solo – a água que vai para o rio vai mais limpa.

3 – Quais os desafios da ILP para o produtor rural (agricultor e pecuarista)? A integração tem um desafio para o produtor rural. Primeiro, ele precisa quebrar a questão cultural. Conhecimento é outro desafio que será necessário buscar. Se o produtor é pecuarista, ele vai ter que buscar conhecimento sobre práticas complexas que envolvem a agricultura. Da mesma forma, o agricultor precisa buscar informações sobre pecuária que também existe um mundo de conhecimento. Ele tem que aumentar a base de conhecimento ou contratar técnicos que o assessorem. Outra limitação são os investimentos. Para o pecuarista iniciar a prática de cultivo de culturas anuais é necessário investir em máquinas, tratores, colheitadeiras, dependendo da região até silo para armazenamento. Por outro lado, quem trabalha com agricultura e pretende trabalhar, também com pecuária, tem investimento em cercas, aguadas, distribuição de rede de água e o investimento na aquisição de animais. Se ele vai trabalhar com 2 a 4 cabeças por hectare, ele vai ter que investir, no mínimo R$ 5 mil a R$ 10 mil por hectare. É um investimento razoável, mas também é uma poupança. Se o produtor precisar de dinheiro rápido, esses animais podem ser vendidos, tem liquidez e o produtor pode ter uma boa fonte de recurso para investimento ou custeio. 

4 – Quais são as culturas que podem ser utilizadas na ILP? Quanto aos sistemas ILP tem uma diversidade de combinações de culturas, do tempo de permanência da pastagem e da lavoura. Cada produtor define o melhor sistema para sua propriedade. As instituições de pesquisa têm buscado resolver problemas pontuais. Muitos desses problemas, seja de sucessão da cultura, consórcios, rotações ou espécies utilizadas para sistemas integrados. Existem muitas possibilidades. O produtor precisa obter lucro com sua atividade. Ele vai elencar aquelas práticas que melhor se ajustem à sua realidade. Existem diversos sistemas de produção, como a soja é a principal cultura anual, é natural que ela faça rotação com pastagem e com outras culturas como cana-de-açúcar, mandioca, algodão, feijão, etc. 

5 – Como as culturas se comportaram na ILP neste ano em que houve geadas? Este foi um ano [2021] com geadas excessivas. A ILP permite que se aumente a disponibilidade de forragem durante o inverno, ampliando áreas de pastagens. Ou seja, mantém-se uma pequena área de pastagem com pecuária no verão e uma grande área de culturas anuais. Nas áreas onde se têm as culturas anuais – em março entra-se com as forrageiras. Durante a estação seca, a época mais crítica para a pecuária, amplia-se a área de pastagem. Porém, com as geadas desse ano ocorreu a morte da parte aérea de muitas plantas de capins, porque foram geadas sucessivas, o que comprometeu em parte os sistemas integrados. Nessas regiões sujeitas a geada, quando há uma ou duas, elas não chegam a comprometer muito a produção de pasto, porque se tem plantas novas, nutridas, com uma capacidade maior de suportar esses estresses ambientais, seja seca seja geada. Por outro lado, quem trabalha com ILP tem mais facilidade de produção de forragem conservada, seja feno ou silagem. Isso facilita também que o produtor armazene alimento para utilização em épocas críticas. 

6 – Neste ano de 2021, foi realizada a 3ª Edição do Seminário de Sistema de Produção de Integração Lavoura-Pecuária. Como são escolhidos os assuntos? Os temas para o Seminário ILP foram buscados entre produtores, fundações, cooperativas, parceiros que auxiliam na realização desse evento.

7 –Qual a percepção dos participantes? Quanto ao feedback, o evento é planejado para que haja troca de conhecimento em ILP, por isso, antes do evento são disponibilizados ao público vídeos técnicos e casos de sucesso, que envolvam os sistemas ILP. Assim, no dia do evento a prioridade é responder perguntas dos participantes. Após o evento, continuamos recebendo mais perguntas, ligações, e-mails, assim como programação de visita de produtores e técnicos a Unidade. Temos como objetivo nesse evento compartilhar conhecimentos técnicos e de casos de sucesso, já que os diferentes atores, pesquisadores, técnicos da assistência e produtores, tem demandas e soluções que possibilitam aperfeiçoar os sistemas integrados.  

8 – Como os organizadores viram o resultado do evento? Nesse Seminário, os resultados foram muito bons pela troca de informações que o evento proporciona. Embora tenhamos nesses últimos dois eventos, virtuais, limitada interação entre os participantes. Mas a perspectiva para os próximos é que sejam híbridos, com participação virtual e presencial. Estamos buscando mecanismos para que os participantes virtuais tenham maior possibilidade de interação. 

9 – Dos casos de sucesso apresentados nesse último Seminário, qual você destaca? Todos os casos de sucesso têm algo interessante e servem de exemplo para outros produtores. Um dos casos foi um sistema que integra mais de uma propriedade, sendo uma envolvendo solo argiloso, com agricultura consolidada, outra em solos arenosos, mais recente, onde a soja está se expandindo. Outro caso apresentado envolve um sistema já consolidado de agricultura pecuária, onde o pai conduz a pecuária o filho utiliza lavoura. Em outro caso, foi apresentado um sistema inovador de rotação de pastagem e mandioca em plantio direto. Chamou a atenção o plantio direto de mandioca sobre pastagem. Depois de dois anos com o cultivo de mandioca, a pastagem retorna, permanecendo por mais quatro anos. É um sistema diferente do que vem sendo conduzido sobre integração lavoura-pecuária. 

10 – Como os assuntos são selecionados para o evento? Os temas do Seminário são selecionados pelos produtores, técnicos, parceiros do evento. Os produtores têm demandas técnicas que precisam ser resolvidos. As soluções podem ser buscadas com o exemplo de outros produtores, mostrando casos de sucesso, ou junto aos nossos parceiros, sejam fundações, cooperativas, universidades ou outras Unidades da Embrapa. Buscamos mostrar nesses seminários novidades que nossos parceiros vem obtendo para apresentação aos participam do evento. 

11 – O que foi abordado durante o 3º Seminário? Os temas escolhidos para o Seminário Técnico de 2021, além dos casos de sucessos, buscamos algumas práticas pontuais para melhorar o desempenho desses sistemas. Uma delas foi adubação para culturas anuais, apresentada pelo colega Douglas da Fundação MS, quando ele abordou os detalhes, a correção e a adubação. Quando se pensa em entrar com lavoura ou culturas anuais em áreas de pastagens degradadas. Em outra abordagem feita pelo colega Edemar Moro, da Universidade Unoeste, foi tratado da adubação de pastagem nesses sistemas integrados. Foi dado ênfase a adubação nitrogenada e o uso de leguminosas, como forma de fixação de nutrientes. 

Abordamos também o consórcio de milho com forrageiras. Hoje está bem sedimentado o consórcio de Brachiaria ruziziensis com milho safrinha, mas buscamos alternativas de rotações com outros capins, outras estratégias de implantação, seja espécie de forrageira utilizada para minimizar a competição, seja o controle desses capins após a semeadura junto com o milho. Além disso, disponibilizamos informações sobre forrageiras na rotação lavoura e pastagem. Os benefícios dessas forrageiras para o solo, para a biologia e física do solo, e como tem se comportado o rendimento das culturas. 

Assista aos vídeos da 3ª Edição do Seminário ILP com palestras e casos de sucesso com a ILP. https://bit.ly/3mAJKpt. O seminário está no Canal da Embrapa no YouTube: https://youtu.be/knKl7vVWrxc.  

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