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Geral OPINIÃO

Uma cuspida na cara das brasileiras

Resistência ao fascismo, imbecilidades e estupidezas

06/11/2020 08h56 Atualizada há 4 semanas
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Por: Redacao
Edilson José, jornalista
Edilson José, jornalista

*Edilson José Alves

A “tese” do advogado de defesa, complacência do Ministério Público e descabido comportamento do judiciário ao aceitar o argumento de “estupro culposo”, além de inédita, causa repugnância na maioria da sociedade brasileira. O caso envolve uma influenciadora digital de Santa Catarina, Mariana Ferrer, de 23 anos, que teria sofrido estupro depois de dopada e já inconsciente, conforme a denúncia apresentada.

O acusado de cometer o estupro é o empresário André de Camargo Aranha, defendido pelo advogado Cláudio Gastão da Rosa Filho. Sob os olhares do juiz Rudson Marcos, do Tribunal de Justiça de Santa Catarina que absolveu o acusado, e do promotor de justiça Thiago Carriço, o advogado Cláudio Gastão não só lançou no meio jurídico brasileiro a tal tese de “estupro culposo”, como partiu para as agressões verbais, tentando desqualificar a conduta moral da vítima, imputando a moça toda a culpa pelo ocorrido.

Mariana havia feito a denúncia depois, que segundo ela, no ano de 2018 quando ainda era virgem, durante uma festa em Florianópolis, foi dopada e estuprada. A polícia catarinense investigou o caso, sendo que a perícia técnica encontrou material genético compatível com o de André de Camargo Aranha na calcinha da vítima. Diante do material comprobatório, ele acabou apontado no inquérito policial como suposto autor. O caso só veio a ser julgado agora no mês de setembro passado, mas o desfecho contrariou a acusação de violência sofrida por Mariana, provocando um sentimento de comoção e revolta nacional. Tanto que o Senado Federal na última terça-feira, dia 3 de novembro, aprovou voto de repúdio ao advogado de defesa, ao juiz e ao promotor que atuaram no caso.

A senadora de MS, Simone Tebet, que é formada em direito pela UFRJ e tem mestrado na PUC-SP, avaliou o julgamento e a sentença como uma desonra para o Brasil. Simone é presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), enfatizou que a vítima foi humilhada durante o julgamento e ao avaliar o comportamento do Ministério Público e do juiz resumiu “rasgaram lei e desonraram a justiça. Foi uma cuspida na cara das brasileiras, que exigem respostas”.

Se nós queremos um país justo, humano, sem violência, precisamos nos indignar sempre que ocorrer um fato absurdo como esse. Não tem questão de esquerda, direita ou qualquer outra ideologia. O caso que ocorreu em 2014 envolvendo o então deputado Bolsonaro que, à época, afirmou em rede nacional e repetiu outras vezes que a sua colega de parlamento deputada Maria do Rosário (PT-RS) não merecia ser estuprada porque ele a considerava "muito feia" e porque ela "não faz" seu "tipo", gerou indignação de alguns, mas é bem verdade que virou piada de mal gosto para outros. Por esse ponto de vista do hoje presidente, podemos deduzir que a mulher tem de possuir alguns atributos – aos olhos dele – para merecer ser estuprada. Isso não é piada. É crime.

E no Brasil a coisa está ficando tão grave, que alguns só faltam abaixar as calças para agradar ao “rei”. Vejam o caso do jornalista elogiado por Bolsonaro e recentemente contratado para trabalhar como comentarista na Rede Record, Rodrigo Constantino, que fez uma live indecente para afirmar que não denunciaria nem mesmo o estuprador da própria filha. Defende que primeiro avaliaria se ela “deu mole” para que isso acontecesse. Olha o tamanho do absurdo. O país é democrático, as pessoas são livres para expressar seus pensamentos, mas não podemos abusar. Não se pode permitir apologia ao crime. Tanto que a rádio em que ele também trabalhava, a Jovem Pan, que comunga das ideias bolsonaristas achou a opinião divulgada em redes sociais o “fim da picada” e demitiu o mesmo, emitindo uma nota oficial da empresa informando que desaprova veementemente todo o conteúdo publicado nos canais pessoais e apresentado na live em que Constantino fez tais afirmações.

Nós, brasileiros, não podemos permitir que um advogado, promotor de justiça ou mesmo um juiz, transforme uma vítima em ré. Isso já é barbárie. Não é porque uma mulher fez uma foto sensual ou usa saia curta, desfila nas ruas com vestido transparente que o homem pode estupra-la. O mundo se moderniza a cada dia, nós também precisamos nos modernizar, adquirir conhecimento, ser cumpridor dos nossos deveres e regras de viver em sociedade e exigir integralmente nossos direitos. Não podemos viver como um ermitão.

Apesar de figuras reprováveis, temos ainda muitos em quem podemos nos espelhar e isso é muito bom. Entre as figuras que admiro poderia destacar neste artigo o admirável ator, autor e diretor de teatro, Bemvindo Sequeira. Ele que sempre ao aparecer em suas redes sociais nos convida a resistir ao fascismo, imbecilidades e estupidezas. E resistir ao julgamento de Mariana Ferrer é justamente isso.

*Jornalista

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