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OPINIÃO

Aldir Blanc se foi e rock agora é “coisa do capeta”

O bravo defensor da liberdade democrática tombou aos 73 anos

07/05/2020 10h36Atualizado há 4 semanas
Por: Redacao
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*Edilson José Alves

Esta semana perdemos Aldir Blanc, um dos mais importantes compositores da Música Popular Brasileira. O bravo defensor da liberdade democrática tombou aos 73 anos, justamente em um momento dramático da nossa história, hoje é como se estivéssemos vivendo num estado de exceção, período em que os direitos fundamentais deixam de existir. Tempos nebulosos em que a chefe da cultura brasileira, Regina Duarte, preferiu se esconder, não lamentou publicamente e nem publicou ao menos uma nota de pesar mesmo diante da importância do poeta morto. Optou pelo caminho da covardia, demonstrou fraqueza e medo de enfrentar uma tal patrulha ideológica instalada por uma gestão funesta que considera o rock “música do capeta” e, pior, não aprecia ou nutre qualquer respeito pelo que temos culturalmente de melhor, mesmo com a autoproclamação constante de serem patriotas.

Além da irreparável perda, a morte de Aldir Blanc aguçou-me lembranças muito boas do final da década de 70 e início dos anos 80 quando a Rádio Clube de Dourados que a partir de 1963 passou a contar com a voz marcante do saudoso Jorge Antônio Salomão, brindava seus ouvintes nas noites e madrugadas com o melhor da MPB. As composições imortalizadas de Blanc sempre estiveram presentes nas vozes de grandes nomes como João Bosco, Elis Regina, Clara Nunes, entre tantos outros cantores que gravaram suas letras.

Ao lado do fiel companheiro João Bosco, Aldir Blanc, compôs “O Bêbado e a Equilibrista”, revelando através da letra poética musicalizada o drama vivido pelos artistas no período da ditadura. A música lembra Maria, viúva do operário metalúrgico Manuel Fiel Filho, e Clarisse, viúva do jornalista Vladimir Herzog. Os dois morreram depois de serem encaminhados para o DOI-CODI do II Exército. Manuel foi torturado e morto por supostamente receber exemplares mensais do jornal “A Voz do Operário” e Herzog também torturado e morto porque teria ligações com o Partido Comunista.

A letra maravilhosa de “O Bêbado e a Equilibrista” lembra também do irmão do cartunista Henfil, Herbert José de Souza, o Betinho, que diante de uma brutal repressão militar não teve outra opção a não ser viver exilado de 1971 a 1979, primeiro no Chile, depois na República do Panamá, Canadá e México. Betinho era sociólogo e foi com certeza um dos mais importantes ativistas dos direitos humanos no Brasil. Depois que voltou do exílio lançou com enorme sucesso a Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida.

Aldir Blanc abandonou a medicina com especialização em psiquiatria porque dizia viver o sofrimento dos seus pacientes. Lembrava que se não conseguia resolver os seus como poderia resolver os problemas dos outros. Abandonou a carreira médica, nunca fez fortuna, foi boêmio e por último vivia apenas em casa esbaldando na leitura de livros. Morreu de covid-19 em um leito de hospital público, deixou um legado muito importante para a cultura e a música brasileira. Suas letras nos ensinaram que vale a pena ter amor pelo próximo e que a luta pela liberdade deve ser constante. Esperamos que essa nuvem negra que hoje cobre o nosso país passe logo.

*Jornalista

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