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ARTIGO

A história da cadeira número 3

O Brasil precisa melhorar muito o tratamento com relação às mulheres

27/04/2020 10h37Atualizado há 3 meses
Por: Redacao
Fonte: Edilson José
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*Edilson José Alves

Desde a leitura de “Farda, fardão, camisola de dormir”, de Jorge Amado, aguça-me as histórias da Academia Brasileira de Letras (ABL). No romance de 1979, o escritor baiano faz uma narrativa para contar intrigas que permeiam o ambiente eleitoral para escolha de novo imortal. Jorge Amado mistura personagens fictícios a figuras históricas descrevendo a disputa de tão cobiçada cadeira ocorrida ainda no período do Estado Novo de Getúlio Vargas, envolvendo o coronel Sampaio Pereira, chefe da repressão política do regime e simpatizante do nazismo e o general reformado Waldomiro Moreira. Os dois disputaram a cadeira deixada pelo poeta Antônio Bruno, que morreu prematuramente. É um livro para se deliciar. Mas, o tema deste artigo é outro, a cadeira de número 3, cuja figura merecedora de ocupa-la foi substituída não pela sua falta de capacidade, qualidade ou condição intelectual, mas por um “defeito mortal”, era uma mulher.

Júlia Lopes de Almeida, nascida aos 24 dias do mês de setembro de 1862, no Rio de Janeiro, foi uma das mais importantes escritoras do Brasil. Participou juntamente com outros grandes da nossa literatura das primeiras reuniões para fundação da ABL em 1897. Como a cultura e a política do nosso país foram sempre dominadas pelos homens, na hora “H”, a escritora muito famosa àquela época pelos romances, crônicas e peças teatrais, foi substituída pelo seu marido, o português e ex-diretor de revista na cidade de Lisboa, em Portugal, Filinto de Almeida. Júlia conheceu Filinto um ano antes de se casar em 1887.

A história conta que Júlia Lopes de Almeida foi vítima do sexismo e comportamento conservador que em 2020 ainda permeia o cotidiano brasileiro. Até hoje muitos se perguntam o porquê de uma mulher com obras tão destacadas nunca ter tido a oportunidade de ocupar uma cadeira da nossa Academia Brasileira de Letras. A primeira mulher imortal só foi escolhida em 1977, quando tomou posse, Rachel de Queiroz.

Júlia foi escolhida um dos 13 autores da obra antológica “Medo Imortal”, lançada pela Darksid Books. São seis contos de sua autoria, as quais representam produções de terror da literatura brasileira. Isso demonstra o quanto a escritora esteve à frente do seu tempo. Sua obra permanece viva e ainda pode ser apreciada por todos nós. Ela é um exemplo clássico de que o Brasil precisa melhorar muito o tratamento com relação às mulheres. Se não mudarmos, vamos continuar cometendo injustiças como as que já estão registradas pela nossa história.

“A beleza de Issira deslumbrou a corte; sua altivez fê-la respeitada e temida; a paixão do príncipe rodeou-a de prestígio e a condescendência do rei acabou de lhe dar toda a soberania.  O seu porte majestoso, o seu olhar, ora de veludo, ora de fogo, mas sempre impenetrável e sempre dominador, impunha-na à obediência e ao servilismo dos que a cercavam.” – Júlia Lopes de Almeida, na antologia Medo Imortal.

*Jornalista

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